Nas últimas postagens,
o valoroso e intrépido leitor foi recompensado com artigos que
repensam teorias sobre o emagrecimento. Agora é a hora de por em
prática a decisão já tomada e partir para um mundo mais
equilibrado e saudável e este portal irá auxiliá-lo nesta jornada
rumo à meta almejada.
Perceberam o quanto o
parágrafo acima é recheado de imagens e palavras positivas? O
valoroso e intrépido leitor pode soar como uma brincadeira irônica,
mas no fundo, láááá no fundo, o leitor sentiu-se lisonjeado.
Poderia também ter uma alusão à comunidade do blogue, pois pessoas
com problemas de auto-imagem – que é quase inevitável em alguém
acima do peso que deseja emagrecer – sentem-se melhor fazendo parte
de um grupo, ainda mais um grupo que se autointitule saudável e
equilibrado. Mesmo com essa lacuna, ainda assim há uma declaração
de que é recompensador ler este saite e que o único objetivo dos
artigos é, depois de dissertações intelectuais – coisa pra gente
inteligente – ajudar, apenas ajudar o leitor.
Bem-vindos ao mundo do
marketing. Quem sabe assim os
frequentadores deste recanto da internet
retornam para satisfazer minhas metas – ficar rico como um novo
fitness digital influencer
ou aumentar minha autoestima e meu respeito (já falamos sobre isso e
falaremos mais ainda em futuras postagens) numa catarse do meu
processo de emagrecimento – do qual obviamente eu me orgulho
bastante.
Mas
se eu escancaro logo de cara que estou tentando fazer uma lavagem
cerebral no pobre visitante deste blogue, isso não vai contra os
meus objetivos? Não. Assim como um especialista em balística também
vai levar tiro, ou um cineasta conhecedor de todos os truques de
linguagem cinematográfica vai ficar tenso num filme de Hitchcock.
Essas coisas funcionam a um nível inconsciente – fora do seu
controle. E como todos sabemos, comer demais adequa-se exatamente a
esta descrição: por mais que você tente racionalmente controlar
sua alimentação, o problema vai bem mais fundo. E é por isto que
algumas das dicas que vêm a seguir vão parecer inócuas. Mas vai
por mim – funcionam.
Tudo o que você precisa fazer é usar marketing
e propaganda subliminar em você mesmo.
Então,
vamos lá. Para começar, a primeira e mais óbvia coisa: coma
em pratos menores. Isso mesmo.
De preferência, use pratos de sobremesa. Foi assim que eu comecei,
quando decidi trocar o método (que na prática já não seguia mais)
de comer uma única refeição pesada por várias pequenas durante o
dia. Como não me empanturrar? Desde pequeno, meus pais – que hoje
seriam considerados da classe C ascendente – sempre se preocuparam
em encher meu prato de comida. Crescendo nos anos 70, quando barriga
ainda era sinônimo de prosperidade - ecos de um país
subdesenvolvido e ainda começando a perceber os efeitos da Revolução
Verde (mais sobre isso em um futuro artigo outra vez teórico) –
dar bastante comida a crianças em fase de crescimento era uma
obrigação de progenitores preocupados com a progênie. E foi assim
que me acostumei a equalizar refeição a um prato cheio. É mais uma
daquelas socializações que são feitas sem que percebamos. Mesmo
que não pretendamos comer tudo, temos que encher o prato. Então, se
você usa um prato grande – e ainda por cima está com fome –
você não vai sentir que tem coisa suficiente ali para satisfazê-lo.
Soa
idiota? Talvez. Mas comer sofregamente mesmo quando não estamos mais
a fim, mas porque ainda tem comida no prato, também. Eu sei, eu sei,
você prefere usar seu autocontrole, mas por que não dar uma
ajudinha? Caso queira saber mais sobre a ciência disso, tem aqui um excelente artigo sobre isso, em inglês. Há também o famoso caso do
McDonald's. O fundador contratou um novo executivo, que lhe deu a
ideia de vender as porções em tamanhos – e preços –
consideravelmente maiores. “Ora”, retrucou o emérito fundador,
“para quê? As porções têm um tamanho normal. Quem estiver com
muita fome pede outra porção, depois”. “Não”, fulminou o
novo executivo. “As pessoas sentem-se culpadas e glutonas se pedem
duas porções, mas não veem problema em comerem só uma, se acharem
que é a porção normal”. E o resto é história. Vá a um cinema
e veja o tamanho do refrigerante ou do saco de pipoca “médio”. E
de todos os sanduíches “big” que o McDonald's oferece. Já
reparou o quanto os pratos de comida a quilo são grandes – e
pesados? Porque o peso também é uma dica para o seu corpo. À
medida em que você vai pondo as ofertas do bufê no prato que
carrega na mão, o peso que você
sente é um guia de que pôs demais. Mas, se você já começa com
algo muito pesado, não tem como avaliar. Então, mais uma dica –
quando for se servir em casa antes de uma refeição, não apoie o
prato na pia ou na bancada. Sirva-se com ele na mão.
E
lembra quando eu disse que dietas malucas com ciência mal – ou
melhor, não – explicada ajudam muito pouco? Mas há um truque que
funciona. Aquele de não se comer depois de uma certa hora. Oito,
nove, tanto faz. Não simplesmente não comer carboidrato ou algo
parecido. Mas não comer nada depois de tal hora. Funciona, e não
porque seu corpo não vai mais fazer exercícios, a insulina, os
níveis de glicose, blablabla. Funciona porque você vai ficar mais
tempo em jejum. Simples assim.
Outra coisa que ajuda – dormir. Inclusive porque se você adicionar
exercícios à sua dieta, vai descobrir que deitar sem ter um
estômago cheio e cansado, além de distrair da fome, vai melhorar
muito o seu sono. Seu corpo, afinal, vai precisar de repouso para se
restaurar e quebrar toda a gordura que – espera-se – vai estar
transformando em energia.
Por
falar em restaurar, pense em de onde vem a palavra “restaurante”.
Por que não “comideria”? (Se bem que depois que inventaram o
gastrobar, que pelo
menos ao blogueiro sugere gastrite ou outras irritações do
estômago, tapiocaria
e hamburgueria, se
amanhã aparecer algo assim, não será de se espantar). Porque a
ideia do estabelecimento é que você se restaure e não simplesmente
se empanturre de comida e saia correndo. Então viva pelo nome da
coisa. Sente numa mesa, de preferência sozinho. Peça um prato, em
vez de se servir no bufê. Palite os dentes. Beba um aperitivo.
Enfim, relaxe. Boa parte de nós, gordos (mesmo aqueles em remissão),
usamos comida como alívio para ansiedade. Para relaxar. Comer em pé
e correndo não vai dar onda.
E,
falando em hábitos de nós, gordos, eis um aqui contraintuitivo: use
um garfo grande. Sim, é sério. Este artigo dá a ciência por trásda coisa. Vamos falar sério: gente com problemas de peso tende a
comer muito rápido. E sabe por quê? Porque a nossa ansiedade, ou
fase oral mal resolvida, ou outra coisa qualquer, nos faz querer cada
vez e mais e mais daquela refeição que estamos gostando. Gordos
costumam encher a boca de uma vez e não parar até ver o prato vazio
(por isso use um pequeno e leve, lembre-se). Então, com um garfo
pequeno, a onda não vai ser a mesma. Raios, a psicologia de
sentir-se satisfeito é tão complicada que até mesmo a cor da comida faz diferença. A srta. L, por exemplo, foi magra a vida
inteira e mesmo hoje, na meia-idade, quando o metabolismo reduzido
inevitavelmente faz os humanos ganharem um pesinho a mais, consegue
manter-se esbelta. No entanto, ela tem o hábito de ir à geladeira e
pegar um pote para oferecer ao blogueiro, dizendo “quer provar este
queijo? Ele é feito de leite de ornitorrincos fermentado por
bactérias do plioceno encontradas na Antártida, sem nunca terem
tido contato com poluição ou mutações, por monges templários
encerrados em um monastério no Himalaia, seguindo a receita de
Hermes Trismégito, redescoberta por Avicena no califado de Córdoba”.
Em seguida, com seus esguios dedos, pega um pedaço compreendendo
cerca de seis átomos, põe-no na boca e espera-o derreter na língua
enquanto fecha os olhos, se concentra, e diz algo como “está uma
delícia”, enquanto o autor deste portal tenta se controlar para
não enfiar goela abaixo todo o pacote, o prato, e em seguida abrir a
geladeira em busca de mais e mais daquela substância cremosa e
odorosa – e isto sem nem ao menos ter ainda provado a coisa para
saber se é boa. Essas estranhas pessoas não deveriam ser dignas de
confiança – esse tipo de autocontrole é coisa de psicopatas sem
verdadeiras emoções ou empatia (empatia com a comida).
Outro
problema, partindo do princípio de que toda a humanidade em algum
momento da vida usa comida para combater a ansiedade, é como fazê-lo
quando se está comendo não só não mais do que se deveria, como
menos do que se precisa. O blogueiro decidiu que, dane-se a saúde,
ele iria precisar provar alguma coisa com sabor quando estivesse
entediado. E optou por Coca Zero. Se isso faz seus cabelos arrepiarem
ou seus pelos se eriçarem pelo mal que pode fazer à sua saúde e
seu sistema digestivo, apele para algum outro líquido de baixa
caloria – mate (como o blogueiro fez da primeira vez em que perdeu
peso, láááá na adolescência), Ades, café amargo, essas coisas. Não use sucos
integrais. Frutas têm zilhões de calorias, mesmo se você não
puser açúcar.
E,
para terminar, lembra do que falamos ali em cima sobre dormir bem
devido aos exercícios? Adicione exercícios à sua rotina. Pegue uma
bicicleta. Caminhe. Vá para todos os lugares possíveis a pé. Entre
para uma academia. Corra. Exercícios são ótimos para dieta, não
porque queimam calorias – isso tem muito menos efeito do que se
imagina, como será explicado em outro artigo –, mas porque dão
onda, cansam e viciam. Sim, isso mesmo. Onda de endorfina realmente
existe. A sensação de bem-estar que o exercício proporciona
combate a ansiedade e a estafa. E como essas são duas motivações
que levam a comer sem estar com fome, ponto para a sua dieta. O
contato com seu próprio corpo também ajuda a reconhecer os sinais
do corpo – inclusive quando ele avisa que chega de comida. O
metabolismo melhora, a circulação do sangue melhora, a digestão
melhora. O aumento de musculatura faz com que, mesmo parado, seu
corpo consoma mais energia, porque músculos, mesmo em repouso,
exigem muito mais calorias para a manutenção do que gordura ou
outros tecidos moles e indesejáveis. E, por fim, por uma questão
muito simples – estar ao ar livre, longe de casa E DA GELADEIRA
tira o pensamento de comida e distrai o vivente, evitando que ele
coma por tédio. Obviamente, escolha algo que você goste de fazer.
Curte animê e mangá? Vá fazer kendô na ACM da Lapa, ou na
Gurilândia. Sempre quis se sentir Robin Hood? Comece a treinar arco
e flecha no Cosme Velho ou no Clube Municipal na Tijuca. Prefere ser
um ágil e elegante espadachim? Tem aula de esgrima no Ginástico na
Graça Aranha. Você vai encontrar um esporte que curta, se quiser. E
a disciplina exigida para a prática dessas coisas ajuda o
autocontrole.
Bem,
para quem estava reclamando que os últimos artigos foram todos muito
intelectuais e teóricos, essas são algumas dicas práticas para
emagrecer. Automarketing
é fundamental. Treinar o autocontrole também. Comer é um ato de
prazer que não exige a presença de outras pessoas. Não é ilegal.
É fácil, acessível e barato. Nós, humanos, adoramos nos viciar em
vícios. E não conseguimos ligar o nosso eu futuro às decisões que
tomamos hoje. Por isso, evite dicas de autoajuda do tipo “pense em
você esbelt(x) cheio de parceir(x)s sexuais e sendo visto com bons
olhos no trabalho” (não porque isso não vá acontecer – vá por
mim, isso muda mesmo). Esse tipo de coisa não vai funcionar. Já
comer em prato pequeno – ah, pense como os restaurantes de comida a
quilo, com suas mesas cheias de gente desconhecida ao seu redor, seus
pratos grandes e pesados, e suas comidas multicoloridas se espalharam
por toda a cidade e quase dominaram o mundo. Felizmente, suas
aliadas, as locadoras de vídeo, foram feridas de morte pelo Netflix.
Mas isso é assunto para outra postagem pretensiosa. Até lá.
Quando comecei a comer a quilo, engordei, porque usava todo o prato! É isso, essa dicas aparentemente simples fazem toda a diferença!
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