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Religião é a Violência Terceirizada


Existem teorias de que a ideia de propriedade privada começou depois que nós, humanos, começamos a criar animais. A galera começou a reparar que era sexo que fazia as fêmeas engravidarem. Foi aí que os hippies da época pararam de esculpir aquelas Vênus neolíticas gorduchas e de peitos caídos (qualidades adoradas porque sugeriam que ela teve – e amamentou - uma numerosa prole) e passaram a entalhar pirocas (e, provavelmente também porque é bem mais fácil, pelo menos segundo Lacan, que acha que tudo é uma piroca). Em vez da deusa da fertilidade, passamos a ter o mito do falo criador. Os filhos pertenciam aos pais que os fizeram. Não à toa a palavra que descreve o conjunto das suas posses é patrimônio.

Nas sociedades caçadoras-coletoras ninguém tinha muitos bens. Até porque eles eram nômades e depois teriam que carregar aquelas porras todas. Eles carregavam seu essencial – arcos, flechas, panelas, cestos – e, principalmente, a ideia daquilo tudo. O dia em que o arco quebrasse de vez, eles faziam outro porque sabiam como fazê-lo. O meu, por exemplo, está parado aqui em casa há um tempão porque a corda arrebentou e eu nunca aprendi a trançar o kevlar e depois dar os nós de encaixe. Sabia fazer chicote pra pescar, então fica todo o mundo avisado que ninguém precisa me ensinar a pescar se eu for à falência, é só me dar os chumbos, cordames, giradores, varas, molinetes e anzóis.

Quando finalmente a humanidade descobriu a agricultura – que foi mais ou menos na mesma época em que se começou a criar animais – é que finalmente o povo pôde começar a sossegar em um lugar só, e começar a acumular seu patrimônio. Porque eis que passou a haver excesso de alimentos, o que liberou uma galera de ter que ficar caçando ou coletando sua comida, ou mesmo arando campo e jogando semente. Ser camponês era trabalho pra turno integral. Não dava mais tempo pra sair procurando o galho perfeito de freixo (não o deputado) e entalhá-lo até parecer um arco, uma lança, ou uma piroca em homenagem ao Falo Criador. Esse conhecimento passou a ser desnecessário pra quem estava colhendo trigo. Começou a divisão de ideias e bens.

Quando eu li “Duna” na adolescência, os personagens falavam toda hora que você só é dono de alguma coisa se puder destruí-la (estavam falando da especiaria). Não precisa chegar a tanto, você precisa só bloquear o acesso dos outros, não precisa bloquear o seu também. Não é necessário explodir toda a especiaria, basta não deixar que os outros a peguem. No começo, esse poder era exercido através da força. O clã dos Scrooge, digamos assim, dizia que o poço de água limpa era deles e, se alguém tentasse usar, eles perseguiam e matavam. Ou enchiam de porrada. Dependia do talento diplomático dos caras. Mas, à medida em que começou a divisão das ideias, também começou a do trabalho. Não dava pra saber tudo sobre semear o trigo, recolher cada espiga do trigo, roubar do trigo o milagre do pão e ainda fazer um arco, forjar uma espada e um escudo e dominar a arte – e a musculatura – de brandir aquele pesado pedaço de bronze sem parar na cara dos sujeitos que viessem desafiar o clã.

Então era necessário que o povo que tivesse mais ideias organizasse as coisas. E quem era treinado pra saber um monte de rituais, conhecimentos práticos disfarçados de simpatias e magia, fases da lua, estações, manutenção de estruturas e essas coisas? Os sacerdotes.

Sim, porque o trabalho agrícola é tão repetitivo e cansativo que o povo perde o interesse por magia. Nas sociedades caçadoras/coletoras, o xamã (eu adoro a palavra morubixaba, pena que ninguém mais use) é um sujeito que veste uma máscara e vai dar porrada nos maus espíritos pra recuperar a alma do paciente doente. Nessas sociedades, a magia acontece no presente. Já os agricultores têm uma mitologia que aconteceu no passado. Os sacerdotes não saem no braço com os deuses, imploram para serem ouvidos. A idade de ouro já passou, estamos na idade do ferro, ou então teve um dilúvio (um monte de civilizações antigas tinha um mito de dilúvio que teria reiniciado a humanidade como alguém desistindo de um jogo de Civilization que desandou), ou alguma outra coisa parecida.

Porque eles tinham se tornado os guardiães dos segredos – os donos das ideias. Eles e o Estado. A história da humanidade, como gostava de dizer o H. G. Wells é um longo confronto entre o palácio e o templo. A turma do palácio é a da meritocracia, que chegou lá dando porrada ou comprando, vendendo, negociando e fazendo o que hoje chamamos de política. A turma do templo é a hereditária.

Em suma, com a complicação que foi se tornando viver em sociedade, o pessoal que organizava, que sabia das coisas, passou a ter mais poder. Inclusive de organizar a turma violenta. Os lavradores não tinham mais tempo pressas atividades. Nem a terra, que normalmente era do palácio ou do templo. Ou dos amigos dessa turma. Aí que começou a terceirização da força.

Sim, porque a partir do momento em que você começa a ficar rico, você percebe que tem muito mais acesso a luxúria, mulheres (lembrem-se que era a época da piroca criadora, falocentrismo, machismo etc. Etc.) e não é você sozinho que vai evitar que todo aquele povo despossuído venha tomar seus bens. Esse trabalho passa a ser da turma do palácio. Mas, como já diziam os romanos, quis custodiet ipsos custodes, quem vigia os vigilantes? (Embora a frase depois tenha sido usada sobre a guarda pretoriana, sobre policiais corruptos, milícias e afins, originalmente se referia às mulheres, o bem mais valioso, pois garantia sua progênie e seu status – confira a coluna sobre Os Homens que Odiavam as Mulheres II).

A turma do templo tinha mais facilidade em controlar seus membros (membros tipo de uma organização, não as pirocas criadoras). Não à toa ordens místicas costumam ser regras bastante rígidas sobre celibato e castidade – raios, até os Cavaleiros Jedi são proibidos de constituir família (embora, segundo o George Lucas, possam dar umazinha casual sempre que quiserem). Sem ambições de passar adiante o seu patrimônio (haha! Lembram da etimologia da palavra?), tinham mais interesse na manutenção da ordem geral.

Foi assim que a religião, depois que surgiu a agricultura, deixou de ser uma aventura e tornou-se um bastião do conservadorismo. Mesmo quando começava subversiva, como no caso do cristianismo, os bons governantes (Constantino, o Grande) tratavam, assim que possível, de apropriar-se dela. É por isso que a política na religião é sempre mais dominante do que o misticismo e, quando este toma conta, é sinal de que alguma coisa está em forte decadência – a sociedade, a civilização, ou a própria religião.

Os ricos não vão passar por um camelo no buraco da agulha, ou algo parecido sobre o povo preocupado com seus bens não atingir a iluminação. A frase é muito bonita, mas é reservada para os santos, ou os iluminados, que são sempre vistos com admiração – e um certo ar de que eles não pertencem à turma – pelos outros sacerdotes. A religão pode ser a sua salvação, mas na sociedade acaba sempre sendo o instrumento da terceirização do controle de propriedade. É por isso também que vemos tantos velhos impotentes e barrigudos falando grosso e dizendo que tem que dar porrada e matar. Eles precisam apresentar uma imagem de quem pode controlar sua propriedade, não só pela força como pela influência junto ao palácio e ao templo. E, quando aparecem as crises, mais apegados eles se tornam à terceirização da violência e à religião.

E estamos em crise.

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