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Abrace a Sua Culpa Gorda para Emagrecer

Existe uma corrente libertária que tende a ver o sentimento de culpa do ser humano – principalmente quando ligado à sexualidade – como consequência do cristianismo. Obras tão díspares como Memórias de Adriano ou a minissérie Roma foram construídas exatamente para mostrar um retrato da civilização ocidental em sua fase dionisíaca, antes de corrompida pela religião de escravos (segundo Gibbon) ou fracos (segundo Nietszche). É claro que os dois grandes pensadores, trabalhando na aurora do Iluminismo, não tinham acesso a todos os dados antropológicos colhidos nos últimos 150 anos, o que, aliado ao inescapável etnocentrismo da época, os levasse a acusar a igreja, então envolvida em séria guerra contra as boas novas científicas da Era da Razão e do Século das Luzes. De lá para cá, os estudos aumentaram e a igreja perdeu boa parte se sua força, deixando de preocupar tanto os cientistas e intelectuais (que, a julgar pelo precedente histórico, estão sempre prontos a declarar mortos e enterrados movimentos sociais perigosíssimos, que sempre voltam para assombrá-los, mas isto não é assunto para este blogue. Melhor consultar o meu outro de assuntos gerais, o Urublog).

Pra ter culpa, basta estar vivo. Entre tantas outras combinações possíveis, só nós atingimos o estágio da existência. E, ocupando espaço, consumindo recursos, estamos tomando um lugar na limitada biosfera. Como o Soldado Ryan no final do filme, será que merecemos esses sacrifícios de outros? Muitas sociedades caçadoras-coletoras, sem a fartura da produção em massa, adotam o costume de que seus integrantes (homens) só podem tomar uma esposa depois de matar um inimigo. Pode parecer a um observador desavisado que é um modo de provar seu valor, mas antropólogos e sociólogos treinados e calejados (ou gente como eu, que leu na internet algum artigo ou resumo sobre livros desses caras) sabem que é um reflexo cultural do conhecimento da finitude do se pode obter da terra. Um casamento vai levar a uma progênie, bocas para alimentar, corpos para vestir, madeira ou pedra para casas maiores... enfim, se mais cabeças vêm para este mundo, tem que tirar algumas outras primeiro.

E ainda nem mencionamos o mais importante: como seres onívoros que comem carne, existe um devastador efeito psicológico em viver da morte de outros seres quando se tem plena noção do que seja a morte. Não é à toa que, novamente em muitas sociedades caçadoras-coletoras, seu principal deus, totem, ou objeto de adoração, seja o animal no qual se baseia sua alimentação, como o búfalo dos nativos americanos, ou o urso dos ainos. É uma maneira de se pagar um tributo àquele que sofre para que possamos viver. Chega a ser irônico que o cristianismo seja acusado de ter criado a ideia de culpa quando é um reflexo cultural de nossa tentativa de aliviá-la: afinal, o fundador da coisa é um sujeito que deu sua vida para que pudéssemos viver a vida eterna e, para deixar as coisas mais claras da maneira mais direta possível, ainda virou e disse tomai e comei do meu corpo. Se a gente vê isso numa série do Netflix, vai logo pensar, “céus, que metáfora nem um pouco sutil...” É por isto que na psique humana sexo e morte estão sempre entrelaçados. Não só o primeiro é o oposto da segunda – o ato da criação da vida – como essa vida criada vai trazer inevitavelmente morte ao mundo. Não à toa Adão e Eva dão umazinha e perdem a imortalidade (Eva ainda é tentada por uma cobra – metáforas sutis não se tornam mitos).

Então, depois desta longa e desnecessariamente intelectualizada introdução (para impressionar leitores, lembrem-se da importância domarketing até para quem está fazendo dieta) o sagaz leitor já chegou à conclusão “ah-ha! Então é por isto que todos nós nos sentimos culpados quando comemos demais!” - sim, o pior é que isto é verdade, não é só aquela história de que vai levar você a engordar 3 quilos e perder sua esbelta silhueta. Gente banqueteando-se excessivamente também tem sido uma metáfora pouco sutil desde tempos imemoriais até Tropa de Elite. Podemos viver numa era de fartura de comida, mas seu simbolismo ainda está profundamente arraigado em nossa psique. Gula é um dos 7 pecados mortais. Não é à toa que sujeitos magros sempre foram associados a predicados adultos – afinal de contas, uma das definições de adulto era ser um sujeito racional, capaz de controlar seus instintos e suas emoções, ao contrário das crianças.

Mas onde foram parar os adultos? Ainda outro dia minha irmã estava postando um artigo sobre como a atual geração é muito mimada, quer tudo fácil, que a adolescência deles se estica até os 30 anos... (claro que isso tudo em se tratando de classe média, é claro). Mas há uma razão para tanto: a sociedade de consumo. Não só nos ensinando a ser consumidores irrestritos, materialistas e ávidos, como a sua constante automação, que está tornando emprego um sonho distante e que exige cada vez mais preparo.

Veja bem: numa sociedade caçadora-coletora, pouco depois de chegar na puberdade uma pessoa já é adulta. As meninas aprendem a cozinhar e fazer seus utensílios manualmente, o que já pode ser feito por volta dos 15 anos, idade em que também já podem começar a dar à luz. Os rapazes também fazem seus artefatos e, assim que os hormônios lhes dão força para abrir um arco, arremessar uma lança ou uma pedra e brandir um tacape (literal e metaforicamente), são homens prontos. Já sociedades agrícolas exigem um pouco mais de força: arar um campo ou semear horas e horas a fio não são pra qualquer um e, embora o vivente já comece a fazê-lo cedo, só lá pelos 20 anos é que tem a força e a resistência necessárias para se esfalfar tanto (recentes estudos contrariam o que se pensou durante muito tempo e demonstraram que a vida de um caçador-coletor era bem mais fácil do que a de agricultores).

À medida em que as civilizações foram se tornando mais complexas, os requerimentos para ser um adulto também foram aumentando: manufaturar uma armadura de bronze ou um gládio de aço é consideravelmente mais complicado do que fazer uma cabeça de machado de sílex, e exige mais tempo de preparação. Matemática também não é algo que se ensine tão facilmente. Então, quando chegamos às sociedades tecnológicas, preparar um adulto se tornou uma segunda carreira para os pais. Não é à toa que a taxa de natalidade decresce nos países mais desenvolvidos. Não é só parir, alimentar, ensinar o vivente a ser temente a Deus e aos nobres e mostrar como se semeia um campo. É necessário um enorme investimento para criar um cidadão produtivo. Pense bem: até algum tempo, não tão distante assim, saber ler, escrever e fazer contas era o suficiente para se arrumar um emprego. O sujeito terminava seu primeiro grau e já podia sair em busca de oportunidades.

Mas o trabalho em escritório e fábricas semiautomatizadas exigiam mais flexibilidade de conhecimentos e, surfando também na prosperidade que permitia às famílias sustentarem sua prole por mais tempo, passou a ser quase obrigatória a conclusão da high school, nosso antigo científico, segundo grau, ou, atualmente, ensino médio. Então ninguém estava pronto pra sair em busca de labuta antes de seus 18, 19 anos.

Mas o que aconteceu? Mais robôs e mais chineses foram tornando esses empregos mais escassos. Linhas de montagem e departamentos de contabilidade passaram a ser facilmente substituíveis por robôs, japoneses (depois chineses) e planilhas eletrônicas. Simultaneamente, a marcha da prosperidade tornou a universidade acessível a muito mais gente. A adolescência passou a se esticar até o fim da faculdade. E, nas últimas décadas, quando mesmo um diploma de nível superior passou a ser mato e empresas passaram a exigir MBAs, línguas estrangeiras e pós-graduação para empregos que pagam 2 mil reais (certo, foi há uns 5 ou 6 anos, e não tenho agora o linque pra esse anúncio, mas é sério – se isso está assim no Brasil, imagina lá fora), não sair de casa ou constituir família antes dos 30 anos deixou de ser uma raridade.

Ao mesmo tempo, a prosperidade do pós-guerra tornou a fome não um problema de quantidade de alimentos, mas de distribuição de alimentos. Fome deixou de ser um problema climático e passou a ser de logística. Quem estava vivo lá no começo dos anos 70 deve lembrar que, além de morrer de medo de uma guerra atômica, o outro apocalipse constamente alardeado era o fim dos recursos da Terra: em 2000 o planeta teria 6 bilhões de habitantes e não teria como alimentar a todos. Thomas Malthus foi ressuscitado pelos conservadores, que propunham planejamento familiar dos pobres como solução para os problemas do mundo. Hoje em dia estamos com 7 bilhões e quebramos a barreira dos 6.000.000.000 consideravelmente antes de 2000. Mas ninguém aqui parece estar passando fome, não é? O que aconteceu?

A Revolução Verde.

Ok, sei que este é um artigo que parece não estar levando a como fazer você perder peso, mas juro que ainda vou chegar lá. Mas, como ele já está longo demais, a segunda parte vai ficar para a próxima postagem. Não percam, neste mesmo fat-canal, nesta mesma fat-hora, a continuação de “Abrace a sua Culpa Gorda para Emagrecer”.





Comentários

  1. Ansiosa pela continuação! Vou ter q comer uns chocolates pra aguentar.... 😏

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