Lembram do sujeito que emagreceu 12 quilos em 2 meses alimentando-se basicamente de bolinhos de chocolate com Doritos? E que quando eu contei esta história no trabalho, teve gente que ficou revoltada? Por que, em vez das pessoas ficarem animadas ao descobrir que emagrecer é mais fácil e acessível do que se vende, elas reagem agressivamente?
Porque agressividade é uma resposta básica de quando somos desafiados. Obviamente quem reagiu mais foram pessoas com mais problemas de peso ou obcecadas com sua forma física – e alimentação. Se alguém lhes conta que toda a preparação, todo o sacrifício que eles fazem, pode ser igualado por um sujeito comendo Ana Maria de manhã à noite, sem nenhuma preparação, sem nenhuma leitura ou instrução, está desvalorizando todo seu esforço – mesmo que eles não o façam.
Como já expliquei no artigo anterior, a única verdadeira e testada forma para emagrecer é simplesmente comer menos do que se gasta. No entanto, você conhece – ou mesmo é uma dessas pessoas – alguém que se mune de tabelas de alimentos, passou a comer salgadinhos sem glúten quando começou essa moda (1), ingere barras de proteína, exalta as virtudes da granola e do chia, depois sai e come alguns quibes com batata frita enquanto toma um chope.
Como já dizia Bertrand Russell, poder é tão essencial no estudo das relações humanas quanto energia na física. Toda interação humana é uma busca de estabelecimento de hierarquia e superioridade. Bullying vai muito além de crianças na escola chamando alguém de gordo. Sabe aquele amigo que sempre faz uma piadinha sobre como você está ficando mais careca? Ou aquele outro que diz que o filme que você gostou é de uma estupidez tocante? Ou aquele outro que fala dos seus hábitos alimentares? (2) Pois é, sempre que, mesmo amistosamente, alguém chama a atenção para um suposto defeito seu, é uma tentativa de se sobrepor hierarquicamente.
Em um trabalho anterior, perto de onde eu ficava as mulheres almoçavam. Mulheres de idades variando de vinte e poucos a cinquenta e poucos. Todo dia – e todo dia mesmo –, mais cedo ou mais tarde a conversa acabava versando sobre dietas. Uma delas, particularmente, a de vinte e muitos anos, apesar de ter muito poucos quilos sobrando em sua boa estrutura, estava sempre a testar algum novo regime e desfiando conselhos e conhecimentos sobre alimentos e hábitos alimentares. Normalmente ela costumava perder algo entre 0 e 5 quilos e recuperá-los em seguida, apelando, pelo menos a algumas vezes, a um remedinho para moderar o apetite – só para dar uma ajudinha inicial, dizia ela, mas, na desabalizada opinião deste blogueiro, algo que um candidato a neomagro só deveria tentar se disposto a manter a prescrição mesmo depois de chegar ao peso pretendido. E não só porque é um auxílio artificial que não reprograma seu corpo, mas porque qualquer dieta, para ser bem-sucedida, não tem prazo para terminar. Nunca.
A jovem de quem eu falo era uma mulher atraente, tão bem-sucedida como suas colegas mais velhas na mesa, e como estava se casando, não precisava perder peso numa tentativa de tornar-se desejável. E, como já comentei, estava apenas ligeiramente acima do peso. Decididamente, não tinha motivos de saúde para tentar fazer suas gorduras caminharem para o cadafalso. O que a mantinha então tão obcecada em estreitar sua silhueta?
Status.
Não, não o status de ser alguém capaz de autocontrole e beleza, mas o status de ter um objetivo, persegui-lo e ter conhecimentos profundos sobre ele. Porque, veja só, não importava que ela perdesse e depois ganhasse peso, ou mesmo que nem perdesse peso. O que importava era que ela estava tentando. Estava estudando. Estava se dedicando. E estava mantendo seu projeto. As amigas mais velhas com quem ela almoçava, embora mais acima do peso, estavam sempre comentando que gostariam de emagrecer, mas era a mais nova que estava sempre investindo nisso – mesmo sem realmente precisar. Ela já era boa, mas estava disposta a ser ainda melhor.
E, a cada vez que suas amigas diziam que gostariam de emagrecer, ela desfiava seus conhecimentos – não comer nada depois de certa hora, os melhores remédios para moderar o apetite, alimentos a combinar... sim, ela dominava todos esses assuntos. Os nutrientes que existiam em cada grupo de alimentos. Ela estava pronta. Ela não precisava realmente emagrecer, mas queria tornar-se ainda melhor, e estava preparada, porque todas ali sabiam que não era uma tarefa fácil. Há segredos. Segredos científicos – você sabe, aquelas coisas que envolvem ciência, e moléculas, e equações e... ah, deixa para lá, você não vai entender mesmo.
Ou seja, ela estava criando o que o biógrafo do Steve Jobs chamou de “campo de distorção da realidade” e que o Donald Trump domina tão bem. Estudos científicos desde 1933 já demonstraram que, quando você anuncia uma solução para um problema, e as outras pessoas aceitam, você cria uma “realidade social” onde você colhe os benefícios (em termos de status e poder em relacionamentos humanos) de resolver o problema, mesmo que não o faça! Sim, o seu cérebro tem já o prazer de conquistar alguma coisa somente se você disser para todo mundo que vai fazê-lo – e as pessoas acreditarem, é claro.
Muitos gurus de autoajuda vendem justamente a ideia de que se deve visualizar um objetivo e anunciar a todos que pretende fazê-lo, quando na verdade IMAGINAR o que você quer fazer já deixa você mais feliz e satisfeito – e o torna MENOS motivado a fazê-lo.
O blogueiro não acredita em receitas prontas para emagrecer. Para uma dieta funcionar, basta ingerir menos calorias do que se gasta. O que se come, quando se come, a que horas, quantas vezes, tudo depende do vivente a tentar perder uns quilinhos, desde que funcione, ok. Mas este é um conselho que o gordo em remissão acha importante: quando começar uma dieta, não conte para todo o mundo. As vezes em que realmente consegui perder peso, fi-lo (3) em segredo, com o conhecimento apenas de familiares de primeiro grau e/ou namoradas. Não só por causa de todo esse complicado processo de poder e status em relacionamentos e a maneira como o cérebro recompensa nossa autoimagem, como também porque, quando finalmente as pessoas começam a perceber que, ei, você perdeu peso à beça, a sensação é inestimável. E, na verdade, isso só acontece muito tempo depois que você começa a dieta. Gente que não consegue deixar de anunciar ao mundo como perdeu 3 quilos e está fazendo uma tremenda diferença em suas roupas e no mundo e mesmo na guerra do Afeganistão simplesmente tem uma enorme incapacidade de reparar que alguém ao lado deles perdeu quase dez quilos. E isso não tem a ver só com medo de perder o status, mas porque o povo com quem você interage tem muito mais resistência a mudar a imagem que já montou de você do que o seu corpo a emagrecer. Mas isso é assunto para outra postagem.
Por isso, não seja a pessoa que pesquisa todos os tipos de alimentos, todos os tipos de dietas, fala sobre elas interminavelmente, os melhores exercícios, as melhores rotinas aeróbicas. Apenas faça. Deixe acontecer. Não alimente o seu cérebro com ejaculações precoces. Mergulhe fundo e demore para atingir o clímax. Siga uma dieta de forma tântrica, longa, demorada e prazerosa.
Até mesmo porque, na verdade, ela vai durar sua vida toda.
(1) No começo dos anos 90, quando começaram a aparecer nos alimentos as etiquetas "contém gluten" e "não contém gluten", o blogueiro ficou imaginando quanto tempo levaria para surgir uma dieta baseada em gluten. Até que demorou, foram quase vinte anos!
(2) Principalmente depois que você emagrece. Pessoas que se empanturram de frituras, salgadinhos e doces, regando tudo a muito álcool pesado, não vão perdoá-lo se você... gulp... beber refrigerante! E se o virem comer regularmente salada, prepare-se para que chamem sua refeição de "comida de passarinho".
(3) Porque não queria mais o quilo – desculpem, não resisti.
Porque agressividade é uma resposta básica de quando somos desafiados. Obviamente quem reagiu mais foram pessoas com mais problemas de peso ou obcecadas com sua forma física – e alimentação. Se alguém lhes conta que toda a preparação, todo o sacrifício que eles fazem, pode ser igualado por um sujeito comendo Ana Maria de manhã à noite, sem nenhuma preparação, sem nenhuma leitura ou instrução, está desvalorizando todo seu esforço – mesmo que eles não o façam.
Como já expliquei no artigo anterior, a única verdadeira e testada forma para emagrecer é simplesmente comer menos do que se gasta. No entanto, você conhece – ou mesmo é uma dessas pessoas – alguém que se mune de tabelas de alimentos, passou a comer salgadinhos sem glúten quando começou essa moda (1), ingere barras de proteína, exalta as virtudes da granola e do chia, depois sai e come alguns quibes com batata frita enquanto toma um chope.
Como já dizia Bertrand Russell, poder é tão essencial no estudo das relações humanas quanto energia na física. Toda interação humana é uma busca de estabelecimento de hierarquia e superioridade. Bullying vai muito além de crianças na escola chamando alguém de gordo. Sabe aquele amigo que sempre faz uma piadinha sobre como você está ficando mais careca? Ou aquele outro que diz que o filme que você gostou é de uma estupidez tocante? Ou aquele outro que fala dos seus hábitos alimentares? (2) Pois é, sempre que, mesmo amistosamente, alguém chama a atenção para um suposto defeito seu, é uma tentativa de se sobrepor hierarquicamente.
Em um trabalho anterior, perto de onde eu ficava as mulheres almoçavam. Mulheres de idades variando de vinte e poucos a cinquenta e poucos. Todo dia – e todo dia mesmo –, mais cedo ou mais tarde a conversa acabava versando sobre dietas. Uma delas, particularmente, a de vinte e muitos anos, apesar de ter muito poucos quilos sobrando em sua boa estrutura, estava sempre a testar algum novo regime e desfiando conselhos e conhecimentos sobre alimentos e hábitos alimentares. Normalmente ela costumava perder algo entre 0 e 5 quilos e recuperá-los em seguida, apelando, pelo menos a algumas vezes, a um remedinho para moderar o apetite – só para dar uma ajudinha inicial, dizia ela, mas, na desabalizada opinião deste blogueiro, algo que um candidato a neomagro só deveria tentar se disposto a manter a prescrição mesmo depois de chegar ao peso pretendido. E não só porque é um auxílio artificial que não reprograma seu corpo, mas porque qualquer dieta, para ser bem-sucedida, não tem prazo para terminar. Nunca.
A jovem de quem eu falo era uma mulher atraente, tão bem-sucedida como suas colegas mais velhas na mesa, e como estava se casando, não precisava perder peso numa tentativa de tornar-se desejável. E, como já comentei, estava apenas ligeiramente acima do peso. Decididamente, não tinha motivos de saúde para tentar fazer suas gorduras caminharem para o cadafalso. O que a mantinha então tão obcecada em estreitar sua silhueta?
Status.
Não, não o status de ser alguém capaz de autocontrole e beleza, mas o status de ter um objetivo, persegui-lo e ter conhecimentos profundos sobre ele. Porque, veja só, não importava que ela perdesse e depois ganhasse peso, ou mesmo que nem perdesse peso. O que importava era que ela estava tentando. Estava estudando. Estava se dedicando. E estava mantendo seu projeto. As amigas mais velhas com quem ela almoçava, embora mais acima do peso, estavam sempre comentando que gostariam de emagrecer, mas era a mais nova que estava sempre investindo nisso – mesmo sem realmente precisar. Ela já era boa, mas estava disposta a ser ainda melhor.
E, a cada vez que suas amigas diziam que gostariam de emagrecer, ela desfiava seus conhecimentos – não comer nada depois de certa hora, os melhores remédios para moderar o apetite, alimentos a combinar... sim, ela dominava todos esses assuntos. Os nutrientes que existiam em cada grupo de alimentos. Ela estava pronta. Ela não precisava realmente emagrecer, mas queria tornar-se ainda melhor, e estava preparada, porque todas ali sabiam que não era uma tarefa fácil. Há segredos. Segredos científicos – você sabe, aquelas coisas que envolvem ciência, e moléculas, e equações e... ah, deixa para lá, você não vai entender mesmo.
Ou seja, ela estava criando o que o biógrafo do Steve Jobs chamou de “campo de distorção da realidade” e que o Donald Trump domina tão bem. Estudos científicos desde 1933 já demonstraram que, quando você anuncia uma solução para um problema, e as outras pessoas aceitam, você cria uma “realidade social” onde você colhe os benefícios (em termos de status e poder em relacionamentos humanos) de resolver o problema, mesmo que não o faça! Sim, o seu cérebro tem já o prazer de conquistar alguma coisa somente se você disser para todo mundo que vai fazê-lo – e as pessoas acreditarem, é claro.
Muitos gurus de autoajuda vendem justamente a ideia de que se deve visualizar um objetivo e anunciar a todos que pretende fazê-lo, quando na verdade IMAGINAR o que você quer fazer já deixa você mais feliz e satisfeito – e o torna MENOS motivado a fazê-lo.
O blogueiro não acredita em receitas prontas para emagrecer. Para uma dieta funcionar, basta ingerir menos calorias do que se gasta. O que se come, quando se come, a que horas, quantas vezes, tudo depende do vivente a tentar perder uns quilinhos, desde que funcione, ok. Mas este é um conselho que o gordo em remissão acha importante: quando começar uma dieta, não conte para todo o mundo. As vezes em que realmente consegui perder peso, fi-lo (3) em segredo, com o conhecimento apenas de familiares de primeiro grau e/ou namoradas. Não só por causa de todo esse complicado processo de poder e status em relacionamentos e a maneira como o cérebro recompensa nossa autoimagem, como também porque, quando finalmente as pessoas começam a perceber que, ei, você perdeu peso à beça, a sensação é inestimável. E, na verdade, isso só acontece muito tempo depois que você começa a dieta. Gente que não consegue deixar de anunciar ao mundo como perdeu 3 quilos e está fazendo uma tremenda diferença em suas roupas e no mundo e mesmo na guerra do Afeganistão simplesmente tem uma enorme incapacidade de reparar que alguém ao lado deles perdeu quase dez quilos. E isso não tem a ver só com medo de perder o status, mas porque o povo com quem você interage tem muito mais resistência a mudar a imagem que já montou de você do que o seu corpo a emagrecer. Mas isso é assunto para outra postagem.
Por isso, não seja a pessoa que pesquisa todos os tipos de alimentos, todos os tipos de dietas, fala sobre elas interminavelmente, os melhores exercícios, as melhores rotinas aeróbicas. Apenas faça. Deixe acontecer. Não alimente o seu cérebro com ejaculações precoces. Mergulhe fundo e demore para atingir o clímax. Siga uma dieta de forma tântrica, longa, demorada e prazerosa.
Até mesmo porque, na verdade, ela vai durar sua vida toda.
(1) No começo dos anos 90, quando começaram a aparecer nos alimentos as etiquetas "contém gluten" e "não contém gluten", o blogueiro ficou imaginando quanto tempo levaria para surgir uma dieta baseada em gluten. Até que demorou, foram quase vinte anos!
(2) Principalmente depois que você emagrece. Pessoas que se empanturram de frituras, salgadinhos e doces, regando tudo a muito álcool pesado, não vão perdoá-lo se você... gulp... beber refrigerante! E se o virem comer regularmente salada, prepare-se para que chamem sua refeição de "comida de passarinho".
(3) Porque não queria mais o quilo – desculpem, não resisti.
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